sábado, 12 de novembro de 2011

A CORDA SOBRE O ABISMO


Perto do meio dia o céu estava escuro, denso, baixo. O ar abafado sufocava e condizia com a tristeza embolada em minha garganta. Queria me esconder, queria fugir do medo tão denso e baixo quanto as nuvens carregadas que poderiam se quebrar e desabar num temporal a qualquer segundo. Caminhei para casa com passos miúdos e rápidos, toda a papelada apertada contra o peito num envelope marron, amarrotado, cheio dos piores fantasmas. Outro pequeno envelope continha promessas de felicidade e ternura, mas era tão leve que mal se percebia. Temia encontrar algum conhecido, mas felizmente a iminencia da tempestade de verão mantinha as pessoas na segurança de seus lares.

Não olho para os cachorros que saltitam a minha presença. Eles farejam a indiferença e voltam a suas cachorrices anteriores. Destranco a porta e uma corrente de vento entra  comigo, ao mesmo tempo em que o céu desaba num fervor de vento, água e raios. Enquanto escancaro as janelas, observo a correria pela vizinhança, todos se  trancam para evitar o aguaceiro. Devo parecer louca. D. Cotinha grita algo que não consigo entender, por causa do barulho e da exuberância das forças da natureza. Recebo uma rajada de água fria no rosto e acolho isto como se buscasse a força que está além de mim para enfrentar o medo que esmaga meus pulmões.

Sem me importar por estar parcialmente encharcada, acendo o pequeno fogareiro e penso  em queimar todo o conteúdo do grande e ameaçador envelope marron. Observo as chamas azuladas e vagarosamente estendo a mão para alcançar a vasilha com água e preparar um chá solitário. Deposito a xícara azul clarinho com florzinhas amarelas sobre a bancada delicadamente, sentindo a segurança que esse simples gesto me traz por saber que aquela louça esta na família a muito tempo, parte de um jogo de chá que pertecera a minha avó. Sei que não é racional esse sentimento, mas é como se a eternidade estivesse contida naquela xícara tão frágil e capaz de durar tanto.  E não uma simples eternidade, mas uma eternidade boa, doce, aromática como chá de morango.

Chá de morango. Você pode enfrentar quase tudo após uma boa chávena de chá de morango, encorpado e perfumoso. Escolho cuidadosamente o sache, aproximo-o do nariz para sentir -lhe a validade. A marca é boa, mas o cheiro que exala do sache tem que estar íntegro para garantir que a qualidade e o sabor estarão inalterados e pensar nestas coisas do cotidiano me parece extremamente agradável agora.

Ouço o previsível e reconfortante chiar da água, murmurando que está no ponto. Antecipo o prazer da degustação, enquanto derramo o líquido na xícara e o sache solta aroma e sabor espalhando um veio colorido que aos poucos funde-se a água, deixando de existir ambos para dar origem ao chá fumegante.

Carrego a xícara entre as mãos em concha, para aquecê-las. Puxo a manta da poltrona e enrolo sobre meus ombros. Diante de meus olhos, emoldurada pela janela, a tempestade  lança as árvores de um lado para outro tentando arrancá-las, mas elas resistem. O espetáculo me fascina, me faz prender a respiração, sinto um nó na garganta. Não sei por quanto tempo apenas observo, mas os ventos diminuem e dou me conta de que apenas a chuva chora sobre a terra. Tenho finalmente lágrimas em meus olhos. Choro junto com a natureza, ou ela chora comigo, não tenho como sabê-lo, mas também eu sou parte deste ciclo de vida e morte que todos os dias tão banalmente se repete no planeta.

Os envelopes estão ainda sobre o aparador e tomo  chá de morango em  goles súbitos que descem quentes em minha garganta, enquanto as lágrimas rolam mornas sobre minha face.  Tantos extremos e possibilidades ambos escondem: no pequeno há um presente dele, uma promessa de recomeço, no outro a possibilidade da dor e do fim, ovo de víbora. O chá parece perder o sabor e alcanço o envelope com uma das mãos. Está meu nome, digitado em fonte times new roman, justo esse modelo de letra, que nunca me agradou. Acho que pensar nesses detalhes insignificantes agora é um modo de não pensar no conteúdo. Parece leve demais, para uma importancia tão grande. Fico furiosa comigo mesma: como posso me deter em leviandades? Esperava que fosse um compêndio ou um tratado? Atiro longe o maldito envelope, entro no chuveiro e ainda vestida sinto a água morna escorrer pelo meu corpo, enquanto soluço, em mais uma tão familiar crise de autopiedade que se abate sobre mim nos últimos meses.

Não sei quanto tempo passei chorando, nem em qual momento a decisão foi tomada e o chuveiro desligado. Enxuguei e observei meu corpo, com uma calma estranha, olhando aqueles braços finos como se não fossem meus. Todas aquelas marcas. Uma história capaz de estourar a caneta e fazer sobrar na pele os traços arroxeados, esverdeados, amarelados, quase um arco-íris.

Organizo primeiro a frasqueira. Tantas pílulas que sobra pouco espaço para os produtos de beleza, que de qualquer forma, quase nunca me lembro de usar. Depois a mala. Decido que a quero leve. Nada que me faça perder tempo, apenas o necessário para manter-me aquecida e a salvo de olhares especulativos. Somente um livro, que depois de lido, substituirei por outro em um sebo qualquer.

Para a doutora, um bilhete e a devolução do envelope grande. Chega de tratamentos, não me importa se reduziu, se diminuiu, não quero saber. Seis meses  lutando, variando a paisagem entre uma janela de hospital e outra, observando as cores dos remédios,  vomitando minha alma e fazendo planos para quando ficar curada. Nada de novo aconteceu e dentro de mim ainda mora meu inimigo número um. Então, cara doutora, por enquanto, a dor ainda é controlável e consigo viver.  Retornarei para os cuidados finais. Antes disso, viajarei pelo mundo. Cantarei em volta de uma fogueira, dançarei, irei num karaokê, tomarei banho de chuva, farei amor.
Por alguns segundos, penso na reação de minha médica e amiga. Mas sei que a ruga na testa, se transformará em um sorriso, porque ela conhece minha determinação e acredita em minha cura tanto quanto acredita num macaco falante que lê o futuro. Coloco o grande envelope lacrado, dentro de outro, endereçado ao consultório.  Deposito na caixa de correio.


Abro gentilmente o pequeno envelope, como se o conteúdo pudesse escapar. E de fato, ele voa como uma andorinha pela sala. Meu cruzeiro. O nosso cruzeiro. Chamo um táxi. Fecho tudo. Aviso D. Cotinha que não precisa me vigiar mais. Parto para a vida.  A morte vai ao meu lado, mas quem se importa? Vou morrer, vivendo.

domingo, 30 de outubro de 2011

CARTAS

1 . CARTA DE KHALIL GIBRAN A MARY HASKELL


10 de Septiembre de 1920

Para vivir es necesario coraje. Tanto la semilla intacta como la que rompe su cáscara tienen las mismas propiedades. Sin embargo, sólo la que rompe su cáscara es capaz de lanzarse a la aventura de la vida.

Esta aventura requiere una única osadía: descubrir que no se puede vivir a través de la experiencia de los otros, y estar dispuesto a entregarse. No se puede tener los ojos de uno, los oídos de otro, para saber de antemano lo que va a ocurrir; cada existencia es diferente de la otra.

No importa lo que me espera, yo deseo estar con el corazón abierto para recibir. Que yo no tenga miedo de poner mi brazo en el hombro de alguien, hasta que me lo corten. Que yo no tema hacer algo que nadie hizo antes. Déjenme ser tonto hoy, porque la tontería es todo lo que tengo para dar esta mañana; me pueden reprender por eso, pero no tiene importancia. Mañana, quién sabe, yo seré menos tonto.

Cuando dos personas se encuentran, deben ser como dos lirios acuáticos que se abren de lado a lado, cada una mostrando su corazón dorado, y reflejando el lago, las nubes y los cielos. No logro entender porqué un encuentro genera siempre lo contrario de esto: Corazones cerrados y temor a los sufrimientos.

Cada vez que estamos juntos, conversamos durante cuatro, seis horas seguidas. Si pretendemos pasar juntos todo este tiempo, es importante no tratar de esconder nada, y mantener los pétalos bien abiertos. Yo te amo Mary, Khalil

La relación entre tu y yo es lo más hermoso que me ha sucedido en la vida. Es la cosa más maravillosa que yo haya conocido en cualquier vida. Es eterna.

De: "El Diario de Mary Haskell" , Septiembre 11, 1922.


2 DE LORD T. PARA ISABEL DE ORLEANS

Cara Senhora D. Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon

O momento faz com que eu tenha que me ausentar do reino por uns dias e antes da partida sinto vossa ausência na minha carne. Sei que compreendes a urgencia que se apresenta e a relação com o delicado momento em que vive este vosso vassalo.
Não ouso levantar meus olhos antes de partir e nem derramar uma lágrima para não deixá-la na mais atroz agonia. Mesmo não podendo vê-la, tão logo meu navio atraque em algum porto escrever-te-ei outra missiva, com toda certeza ainda mais saudosa.
Procurarei aproveitar a viagem e voltarei ainda mais cheio de amor e dedicação a vossa pessoa, com quem partilharei cada sorriso, cada delicadeza e cada sonho.
Não tenhas cuidados, porque sou o mais leal e fiel dos súditos e não tenho olhos senão para vossos olhos e boca senão para teus beijos, oh doce Isabel. Saberei compensar minha ausência, tendo os mais extremosos cuidados e sendo cioso de vossos desejos, rainha de minha alma, musa da minha inspiração e devoção. Ouso pedir lhe apenas que não esqueça deste servo de teu afeto
Lord T.




quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Que fique bem claro a todos que sou uma pessoas muito boba. Quando estou feliz, sou mais boba ainda. E não precisa ser uma felicidade grande para me colocar no mais alto grau de bobeira, a ponto de ser facilmente confundida com uma pessoa bêbada. Às vezes basta uma boa música enquanto cozinho e me  ponho a dançar com batatas, cebolas e tomates. Então, imagine como estou boba por saber que vou rever meus amigos, por poder estar com minha irmã, por ter visto a caçulinha na web, por mamãe me ligando toda semana para recomendar que eu me alimente bem, por ter gente linda que me envia torpedo logo cedo desejando bom dia, por gente linda que vai tocar e cantar para mim e por tanta coisa junta, que me faz sorrir hoje e sempre, com a sensação de que sou abençoada. Então, apesar de tudo, o ET e outros momentos dolorosos que vivi nestes dias recentes me aproximaram ainda mais das pessoas amadas e me deixaram mais boba do que nunca; sou grata por isso.

domingo, 23 de outubro de 2011

Grey's Anatomy

Eu não assisto TV, mas se tem algo que sinto falta são as minhas séries favoritas. Grey's Anatomy é uma das mais mais, por suas falas incríveis, seus personagens confusos e bem elaborados. A Dr. Yang é minha favorita: competitiva, viciada em ser a melhor no seu trabalho, seca, direta. E hoje lembrei de uma frase dela, que vem bem a calhar: 

Se você quer que merdas parem de acontecer com você, então pare de aceitar merda e exija outra coisa.


Ainda compro os dvds de todas as temporadas... 

Presente de domingo


Por alguns minutos eu gostaria de ser a Nara, só para ter um olhar lindo do Chico derramando-se sobre mim...
Tome um pileque de rivotril.
Morda a língua.
Corte os pulsos.
Uive para a lua.
Mas não fale.

Se tiver
tomado vinho barato.
Com a maquiagem borrada.
Ouvindo vozes estranhas.
Vá ao banheiro e vomite.
Não fale.

Mas se você falou,
Não espere amanhecer,
vista sua dignidade,
calce sua vergonha,
coloque o amor próprio na mochila
e fuja para as montanhas.

Não encare mais,
Atravesse a rua,
olhe para o lado,
finja que não viu
e não estenda a mão.
Não pare!
Não olhe para trás.


sábado, 22 de outubro de 2011

CATS

Caminhávamos traquilas e alegres pela rua, Geovanoca e eu, quando um amigo grita: "coloque coleira porque é um cachorro". Um olhar de relance, sem entender e ele me aponta o gato me seguindo. Explico que não é meu, mas o gatinho, não sei se macho ou fêmea, insiste, se enrosca em minhas pernas, quase me faz cair. A menina sapeca que se esconde em mim acha graça, sorri, conversa. Dois quarteirões adiante e o bichinho ainda me acompanha. Não o incentivo pois a quota de animais em minha casa extrapolou faz tempo. Cerca de um quarteirão antes da minha casa, o entregador do supermercado onde faço compras sorri ao ver a cena e pergunta se é meu. Na casa em frente, uma senhora lava a calçada fazendo uma cachoeira. Aproveitamos a deixa e apertamos o passo. Uma hora depois de chegar em casa, ouço a inquietação dos cães e vou ver o que está acontecendo. Espantada observo o gatinho, chapiscado de água, adentrando pela fresta da cerca. Chega como se soubesse o caminho. Volto para a pia, me fingindo indiferente  ante aquela insistência. Ele entra em casa e deita se aos meus pés. Continuo atacando a louça, mas cheia já de uma ternura infantil, pensando que ele deve estar com fome. Rsisto em alimentá-lo para que ele não queira morar aqui, afinal esta casa não é um abrigo. No entanto,  quem me conhece é capaz de adivinhar que a resistencia não durou quinze minutos. Alimentei-o sob os protestos  de Farelo, o gato da casa, que tentava impedir a todo custo. Agora, enquanto escrevo, ele (que meu filho diz que é ela) está deitado aos meus pés, adormecido. Vocês não imaginam que olhos azuis lindos ela tem. Agora estou numa situação difícil: amo cachorros.  Tenho um gato porque Geovana ganhou de presente e hoje esta criatura me aparece do nada, sem pedir licença, como se tivesse todo o direito. Vou ter que procurar o dono, mas e se não encontrar? Como abandoná-la novamente? O que faço com esse meu coração? Confessa que não é coisa mais linda do mundo ser seguida por um bichano fofo, sem provocação, sem necessidade. Um amor de graça, como renegar?